A geração beat volta aos cinemas durante a Copa

Para quem não curte futebol, o cinema é sempre uma melhor alternativa. E no dia que o Brasil estreia na Copa, mais um filme protagonizado por Daniel Radcliffe chega às salas da capital paulista, com o desafio de mostrar o eterno Harry Potter em outro tipo de filme que teste mais seu reconhecido talento. “Versos de um Crime” (no original em inglês: Kill Your Darlings), do diretor John Krokidas, mostra as mudanças na vida de um poeta, Allen Ginsberg (Daniel Radcliffe) diante de um assassinato, que impacta a sua relação com os outros dois escritores da geração beat: Jack Kerouac (Jack Huston) e William Burroughs (Ben Foster).

Depois de "Na Estrada", de Walter Salles, mais um filme que procura retratar a geração beat

Jack Kerouac (Jack Huston) e Edie Parker (Elizabeth Olsen) voltam a ser retratados nesse filme, depois de “Na Estrada”, de Walter Salles

Na história, Ginsberg se mostra um filho obediente para o qual  a Universidade de Columbia é a meca das artes, do intelecto, cultura e liberdade — tudo o que sua cidade-natal, Patterson, em Nova Jersey não tem. Quando ele é aceito em Columbia, seu pai Louis (David Cross), um poeta proletário, o motiva a deixar sua mãe, Naomi (Jennifer Jason Leigh), que está internada por problemas mentais, para trás e ir a Nova York para seguir seus sonhos. Em Columbia, ele encontra o tradicional e ultrapassado em combate com as ideias e atitudes modernas, personificadas em Lucien Carr (Dane DeHaan).

Daniel Radcliffe, como um poeta dos anos 50, tem mais uma chance de mostrar sua versatilidade

Daniel Radcliffe, como um poeta dos anos 50, tem mais uma chance de mostrar sua versatilidade

Lucien tem uma forte influência sobre o tímido e modesto Allen. Logo ele é introduzido ao círculo de amigos de Lucien, que bebem, se drogam e ouvem jazz: William Burroughs (Foster), herdeiro de uma família rica, Jack Kerouac (Houston), que tem planos libertários para um futuro próximo e David Kammerer (Michael C. Hall), que  se ressente da posição de Allen como novo melhor amigo de Lucien.

Crítica: Desconstruindo Daniel Radcliffe

O sucesso da carreira de um ator depende de suas escolhas. E Daniel Radcliffe tem mostrado que o novo caminho de sua carreira é investir muito mais em desafios para seu talento do que ter uma confortável participação em blockbusters, já que a saga Harry Potter certamente lhe rendeu uma volumosa poupança para uma tranquila aposentadoria, ainda que esteja próximo de completar apenas 25 anos de idade.  Enquanto se preparava para sepultar Harry Potter, com as filmagens dos dois últimos episódios, ele já atuava no teatro britânico e na Broadway, iniciando um processo de desconstrução de sua imagem associada ao popular menino-bruxo. Encarnou um perturbado advogado em  2012 no terror “The Woman In Black” e agora encarna um ícone da contracultura: o poeta Allen Ginsberg, que influenciou não só escritores da segunda metade do século 20, mas também inspirou grandes lendas da música norte americana, como Jim Morrison e Bob Dylan.
Dos filmes-família de Harry Potter, Radcliffe salta para uma fita que atinge uma faixa etária bem adulta: “Kill Your Darlings”, que é traduzido inadequadamente no Brasil como “Versos de Um Crime” – levando a uma expectativa equivocada de suspense policial. Na verdade, é um drama sobre o encontro dos jovens rebeldes que originaram o movimento beat de escritores, com uma crítica acentuada à sociedade repressora da época nos EUA, quando a opção sexual de um assassino é o que mais definia a gravidade de um crime. O filme gerou muitos comentários nas redes sociais dos fãs de Radcliffe por causa de suas cenas de beijos e sexo com outro ator, Dane DeHaan, que protagonizava o influente Lucien Carr.

Realmente está muito longe de ser um filme familiar por esse aspecto, mas tal polêmica desvia o foco das interessantes citações literárias que inspiraram uma das fases mais criativas da literatura norte-americana.  A obra metafísica “Uma Visão”, do irlandês William B. Yeats, é uma das mais citadas por Ginsberg e seus amigos da Universidade da Columbia – Jack Kerouac  ((Jack Huston) e William Burroughs (Bem Foster)  –  por sua forma de interpretar a poesia na forma de símbolos e diagramas herméticos, além da descrição do processo cíclico do homem, do auge à decadência. Há também a visão de John Keats, sobre morte e renascimento, o pensamento de Walt Whitman, dentre outras influências que vão surgindo na tela .

O tal crime citado no título em português se refere a uma história real, que gerou um conto escrito por Burroughs e Kerouac, sobre o assassinato cometido por Lucien Carr. A vítima era David Kammerer (Michael C. Hall, conhecido na tevê como protagonista de Dexter), um homem mais velho que o ajuda, mas que passa a perseguí-lo obsessivamente quando é rejeitado como amante.  Apesar de o filme acompanhar o fim da inocência de Allen Ginsberg e seu despertar para um mundo psicodélico e sem repressões, Carr é o centro da trama – uma pessoa que foi citada pelos beats como importante no início do movimento, mas que, como jornalista, nunca fez uma obra contundente. Ele sempre pedia para não citarem seu nome após o trauma de seu crime.  Talvez esteja aí um dos defeitos do filme do estreante John Krokidas: reverenciar demais a presença de Carr, e não explorar mais, como mereceriam Ginsberg, Burroughs, Kerouac e a namorada Edie Parker (Elizabeth Olsen). Nesse ponto, o brasileiro Walter Salles o superou com uma obra mais incisiva e completa em “Na Estrada”.

 

Fernando Porto é jornalista, escritor, terapeuta e editor da Agência Porto de Notícias, que oferece um conteúdo jornalístico diferenciado para o público de cultura, viagens, saúde e lifestyle