Afonso Poyart debuta bem na burocrática Hollywood

Em seu batismo de fogo, com o thriller ‘Presságios de Um Crime’, o cineasta brasileiro tenta impor sua identidade estética e seu ritmo de ação, vistos em ‘2 Coelhos’, mas não consegue impedir os clichês do gênero

Anthony Hopkins, Jeffrey Dean Morgan e Abbie Cornish: elenco de peso

Anthony Hopkins, Jeffrey Dean Morgan e Abbie Cornish: elenco de peso

A história se repete: cineasta brasileiro chama a atenção de produtores de Hollywood por seu filme criativo e é convidado a dirigir uma grande produção americana. E tenta, logo no batismo, impor seu estilo e ideias em um mundo onde cada passo é controlado rigorosamente por produtores, roteiristas e escritores. Afonso Poyart, que criou e dirigiu “2 Coelhos” – uma mistura bem-sucedida de ação, efeitos especiais e animação de videogames – já sabia que esta camisa de força hollywoodiana era o preço para quem quer ingressar na maior indústria mundial de filmes e, quem sabe um dia, ter um controle maior sobre os filmes subsequentes.

Afonso Poyart (à direita) no comando de seu primeiro filme em Hollywood

Afonso Poyart (à direita) no comando de seu primeiro filme em Hollywood

E Poyart também sabia da encrenca que seria ao assumir o thriller policial “Presságios de Um Crime” que surgiu inicialmente como uma possível sequência do thriller de sucesso “Seven”, de David Ficher (que desistiu do projeto, enterrando a ideia de continuação), e passou por um processo tortuoso de sete anos até chegar ao ator Anthony Hopkins, à frente da produção e obcecado pelo projeto. O ator inglês conversou com o cineasta brasileiro e o aprovou, considerando-o muito criativo. Poyart mostrou sua gratidão, como explica em entrevista, escutando muito as ideias de Hopkins e, com muita diplomacia e respeito ao astro, conseguiu impor sua marca no chamado “apelo visual” da produção.

A aparição do assassino (Colin Farrell) e início do jogo de gato e rato

A aparição do assassino (Colin Farrell) e início do jogo de gato e rato

Quem assistiu “2 Coelhos” vai reconhecer a identidade visual de Afonso Poyart em algumas cenas de ação e suspense de “Presságios de Um Crime” (no original, “Solace”), que estreia hoje (dia 25) no Brasil. Claro que não é assim em todo o filme porque estamos falando de uma típica produção hollywoodiana onde é quase proibido ter liberdade criativa, que fuja ao controle do staff maior. E principalmente quando o produtor executivo, “sir” Hopkins, é o ator principal e um vencedor do Oscar por outro thriller, “O Silêncio dos Inocentes”.

No entanto, Afonso Poyart soube lidar com o ego do astro. “Aprendi muito com ele, escutei muito. Acho que fiz uma boa parceria. Ele também teve muita humildade para poder me escutar, um diretor novo; foi muito generoso comigo”, conta.

Uma cena que se encaixaria bem em "Seven", de David Fincher

Uma cena que se encaixaria bem em “Seven”, de David Fincher

E nada mais adequado do que chamar o diretor de “2 Coelhos” para criar efeitos visuais que representem os conceitos de paranormalidade, de visões de passado e futuro que atormentam o protagonista John Clancy (Hopkins). Poyart consegue isso com muita maestria, principalmente na cena de perseguição “gato e rato” entre Clancy e o serial killer Charles Ambrose (Colin Farrell, outro astro da produção) em que o assassino se multiplica em várias “eus” para direções diferentes, tentando enganar as previsões de “futuros possíveis” do paranormal. O cineasta brasileiro também usa com habilidade o recurso slow motion em vários lapsos temporais.
Assista ao trailer:

Outra boa contribuição de Poyart foi a escolha – e até insistência – do talentoso Jeffrey Dean Morgan ( de “Watchmen – O Filme” e da série “Supernatural”) para o papel do agente especial do FBI, Joe Merriwether , assim como de Abbie Cornish (no papel da agente Katherine Cowles), que foi convidada por ele após o amigo e diretor José Padilha dar boas referências da moça, depois de atuar em seu “RoboCop. Também do Brasil, a atriz Luisa Moraes (da novela global “Em Família”) faz sua estreia na produção hollywoodiana, em um papel menor da bela Victoria Raymond, uma das vítimas do serial killer.

“Presságios de um Crime” começa quando o agente do FBI, Joe Merriwether (Morgan) e sua parceira Katherine (Cornish) pedem a ajuda, como analista civil, do médico aposentado John Clancy (Hopkins) para resolver uma série de bizarros assassinatos usando seus poderes de clarividência. O médico logo percebe que seu dom é limitado se comparado ao do assassino (Colin Farrell) e, além disso, jurou não usar mais suas habilidades especiais após a morte de sua filha. Mas Clancy muda de ideia quando tem visões de imagens violentas da agente Katherine.

Na edição do filme, o diretor Afonso Poyart conta a companhia do velho amigo Lucas Gonzaga, que foi co-editor em “2 Coelhos”. Mas, apesar boa condução da dupla em cenas de ação e efeitos visuais, há o contraponto negativo do abuso de clichês do gênero, dentro do roteiro escrito por Sean Bailey e Ted Griffin, que chegar até a diminuir o clímax da surpresa do desfecho. Até a dubiedade do assassino, que seria um ponto positivo, não é tão bem explorada por causa do pouco tempo dedicado à construção (e desconstrução) do personagem de Farrell. Um desperdício para um elenco estelar e para um diretor que poderia ir mais longe em sua estreia se tivesse mais liberdade criativa. Mas Poyart sabe que faz parte do jogo de Hollywood esse início limitado para quem quer colher frutos maiores nas próximas produções.

Fernando Porto é jornalista, escritor, terapeuta e editor da Agência Porto de Notícias, que oferece um conteúdo jornalístico diferenciado para o público de cultura, viagens, saúde e lifestyle