Efeitos modernos em jogos nostálgicos: o melhor de ‘Pixels’

Visual deslumbrante e direção de Chris Columbus evitam os excessos costumeiros de Adam Sandler. É um filme para unir pais quarentões e filhos adolescentes no cinema.

Logo no início do filme “Pixels”, a música “Surrender”, da banda de rock norte-americana Cheap Trick, situa o espectador em um período bem no início dos anos 80. Surge então um campeonato de arcade games – no Brasil, as populares casas de fliperama – envolvendo Sam Brenner, Will Cooper, Ludlow Lamonsoff e o não tão amigo Eddie “Fire Blaster” Plant. Este último vence o torneio no jogo Donkey Kong, humilhando Sam, o segundo colocado. Muda-se a cena para os dias de hoje, quando Sam Brenner é o comediante Adam Sandler, que ainda mantém sua amizade com Will Cooper (Kevin James). O primeiro é um mero instalador de tevês e som, enquanto o segundo tem um “modesto” emprego como… presidente dos Estados Unidos. E os dois vão precisar usar suas experiências do passado para salvar o mundo de um ataque alienígena.

A nostalgia dos anos 80 parece ser uma obsessão para Sandler, que já havia destacado o período, também com o amigo Kevin James, em “Gente Grande” (“Grown Ups”) e sua continuação. Não quer dizer que isso seja um problema, mas os filmes do comediante dividem o público – casos típicos de amar ou odiar Adam Sandler. Mas, para sorte de quem não simpatiza com o comediante, o diretor não é seu amigo Dennis Dugan, de “Gente Grande”, mas sim um cara chamado Chris Columbus, que entende muito de temas ligados à infância e adolescência, pois dirigiu “apenas” os dois primeiros filmes da cinessérie de Harry Potter , além de “Rick Riordan, O Ladrão de Raios” e os antigos “Esqueceram de Mim” 1 e 2. Consegue assim equilibrar uma comédia que resgata os games primitivos da geração de adolescentes dos anos 80 e os compara à diversão atual dos sofisticados consoles.

Michelle Monaghan, Adam Sandler, Josh Gad e  Peter Dinklage: o esquadrão arcade de "Pixels"

Michelle Monaghan, Adam Sandler, Josh Gad e Peter Dinklage: o esquadrão arcader de “Pixels”

Claro que as piadas nem sempre sutis de Sandler estão em “Pixels” para o deleite dos fãs, mas sem tantos excessos típicos de seus outros filmes com sua tradicional reunião de amigos comediantes. Sim, Kevin James está novamente a seu lado, mas é um ator que sabe dar o tom cômico na medida certa. Assim como Josh Gad, que interpretou o guru dos geeks, Steve Wozniak, em “Jobs” e volta aqui ao mundo dos nerds como o alucinado Ludlow Lamonsoff, que passa a vida em busca de teorias conspiratórias do governo. Outro reforço para o equilíbrio do “fator Sandler” é Peter Dinklage, o astro da série “Guerra dos Tronos”, que parece se divertir muito no papel do gamer trapaceiro Eddie “Fire Blaster” Plant, com seus pedidos sexuais bizarros para ajudar a salvar o mundo. Também se destaca a bela Michelle Monaghan, como a tenente-coronel Violet Van Patten, que é especialista em armas “arcader” para lutar contra os alienígenas e terá uma relação de amor-ódio com Sandler como manda o script hollywoodiano.

Mas o ponto forte do longa – baseado no excelente curta-metragem “Pixels”, de Patrick Jean – é o uso eficiente dos efeitos especiais, que transportam os personagens dos primeiros videogames, com suas aparências primitivas de acordo com a tecnologia gráfica da época, para cenários live action, interagindo com perfeição e “pixelizando” humanos e objetos. Ou seja, a ameaça dos monstros alienígenas é renderizar para blocos coloridos os corpos, os carros e os edifícios que surgirem à frente. As imagens de ação encantam ainda mais na projeção 3D, ideal para essa proposta de filme.

Donkey Kong, o pior desafio dos heróis de "Pixels"

Donkey Kong, o pior desafio dos heróis de “Pixels”

Na trama, os alienígenas descobrem uma das famosas cápsulas do tempo, enviadas ao espaço para mostrar objetos ou informações da civilização da Terra em determinada época – no caso da década de 80 –, mas interpretam equivocadamente os vídeos de jogos clássicos de fliperama como uma declaração de guerra. Atacam então a Terra com criaturas semelhantes aos videogames de Pac-Man, Donkey Kong, Galaga, Centopeia e Space Invaders. A única chance da Terra é que os quatro “arcaders” aceitem vencer os ETs em jogos mortais, mas dentro das regras dos fliperamas. Completam o elenco outros astros como Brian Cox (de “Planeta dos Macacos: A Origem”) e Sean Bean (o Eddard Stark de “Guerra dos Tronos”), além de uma hilária participação do japonês Toru Iwatani, criador do Pac-Man, como ele mesmo – homenageando também os 35 anos de criação do mítico personagem dos games.

A tenista Venus Williams sofre com o assédio do cafajeste Eddie "Fire Blaster" (Peter Dinklage) em "Pixels"

A tenista Venus Williams sofre com o assédio do cafajeste Eddie “Fire Blaster” (Peter Dinklage) em “Pixels”

Uma boa proposta para assistir a “Pixels” é juntar as diferentes gerações de gamers no cinema: quarentões que viveram a era dos fliperamas com jovens da geração “Playstation 4”. Assim, os jovens vão parar de ouvir: “Você precisava ver os arcades de minha época; aqueles sim eram desafios.” E a velha geração vai parar de ouvir dos adolescentes: “Existia mesmo diversão sem esses jogos de gráficos superdefinidos?”. Uma prova de que jogos nunca envelhecem e nem ficam desinteressantes está sendo a maior procura de jovens e adolescentes por games e consoles antigos do Museu do Videogame Itinerante, que está passando por várias cidades do Brasil. O que vale mesmo é o desafio de “sobreviver” em cada jogo, como constata o protagonista de “Pixels”.
Assista ao trailer:

 

Fernando Porto é jornalista, escritor, terapeuta e editor da Agência Porto de Notícias, que oferece um conteúdo jornalístico diferenciado para o público de cultura, viagens, saúde e lifestyle

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