Em “Nocaute”, Fuqua homenageia clássicos do boxe

Interpretação de Jake Gyllenhaal o torna forte candidato ao próximo Oscar

O título em português, “Nocaute”, para o filme “Southpaw”, que estreia na próxima quinta (10/9), pode não ser a melhor tradução para essa expressão. Mas é compreensível tal simplificação para o público em geral já que o termo em inglês é mais comum para os adeptos dessa antiga prática esportiva – ou, arte marcial. “Southpaw”, ou “Pata do Sul’, surgiu em tempos remotos como apelido a um boxeador sulista dos EUA que tinha forte potência na canhota. Sylvester Stallone, protagonizando o primeiro “Rocky”, que o levou ao estrelato do dois Oscars, já explicava que seu personagem era um “Southpaw” por sua canhota poderosa nas lutas. E quem é do meio do boxe sabe o quanto incomoda a um destro enfrentar um oponente canhoto, seja por causa de sua inversão de posição de braços e pernas (como um espelho) ou, até mesmo quando ele usa a base ortodoxa de um destro, com imprevisíveis contragolpes.

E assim como Rocky Balboa, o boxeador Billy “The Great” Hope (Jake Gyllenhaal) é um legítimo “Southpaw”, pra lá de letal com seu direto de esquerda movida pela raiva, além de ter o chamado “queixo duro” – outra semelhança com Balboa, que aguentava intermináveis golpes por vários rounds, antes de virar as lutas. Poderíamos, assim, duvidar da originalidade da história de “Nocaute”, roteirizada por Kurt Sutter (da ótima série “Filhos da Anarquia”), porém é mais fácil crer que o diretor Antoine Fuqua (de “Dia de Treinamento”, “Invasão à Casa Branca”, e “O Protetor”) não seria nada tolo de subestimar a memória do espectador de boxing movies mais atento e, ao invés disso, fez dessa e de outras coincidências apenas singelas homenagens ao gênero de filme que ele tanto venera, além de ser praticante assíduo de boxe.

Jack: dedicação nos treinos e atuação que pode render uma indicação ao Oscar

Jack Gyllenhaal: muita dedicação aos treinos e atuação que pode render uma indicação ao Oscar

O apelido de Billy, “The Great” Hope, parece também homenagear outro grande filme, de 1970, de Martin Ritt: “The Great White Hope” (“A Grande Esperança Branca”), baseado em história verídica, no qual o ator James Earl Jones interpretou Jack Johnson, o primeiro negro a conquistar o título dos pesos-pesados e que enfrentara uma dura perseguição racista da sociedade americana do início do século 20. Há também uma motivação dramática de Billy, de retornar aos ringues para recuperar a guarda da filha Leila (Oona Laurence), que lembra a de outro xará, o boxeador Billy Flynn (Jon Voight), de “O Campeão” (de 1979, de Franco Zeffirelli) que volta aos ringues para garantir o futuro melhor para seu filho T.J. (Rick Schroder), cuja custódia ganhou da ex-esposa Annie (Faye Dunaway). Portanto, estão mais do que evidentes as homenagens a clássicos do gênero.

E o que faz Fuqua com essa mistura de elementos antigos do boxe dramático de Hollywood? Ele revitaliza os clichês sem potencializar os riscos de uma cópia estereotipada para entregar um produto final com uma roupagem nova, bem produzida e de escolhas acertadas no elenco – como já fez com muita competência em outros gêneros convencionais do cinema. Se o diretor não tem, dessa vez, o amigo Denzel Washington, de seus sucessos principais, conta com o dedicado Jake Gyllenhaal, que treinou arduamente boxe duas vezes ao dia, por seis meses, garantindo maior realismo em seus golpes nos ringues, sem efeitos ou truques de edição. Gyllenhaal passou por outra impressionante transformação física em lutador musculoso (15 quilos a menos para se tornar um peso-médio), mergulhando novamente no personagem como fez para o esquelético personagem de “O Abutre”. Na preparação mental, Fuqua fez com que Gyllenhaal assistisse a várias lutas profissionais e convivesse com boxeadores experientes. Espera-se que, no próximo Oscar, a Academia de Hollywood não o esqueça dessa vez diante do resultado final, uma brilhante atuação.

Rachel McAdams, como a esposa Maureen, tem também atuação destacada apesar do pouco tempo em cena

Rachel McAdams, como a esposa Maureen, tem também atuação destacada apesar do pouco tempo em cena

Outra iniciativa de Fuqua e do diretor de fotografia, Mauro Fiore, para cumprirem com a atmosfera realística nos ringues, foi a de convidarem os veteranos Todd Palladino e Rick Cypher, que filmam lutas de boxe há muitos anos para o canal HBO Boxing, para gravarem especificamente as tomadas de sequências de luta. A trilha sonora também é vibrante, como exige um bom filme de boxe, contando com o trabalho do compositor James Horner (que lamentavelmente faleceu este ano em acidente de avião) e produção executiva do astro do hip hop Eminem, também coautor de duas composições inéditas para o filme, “Phenomenal” e “Kings Never Die”.

Gyllenhal e Fucqua fizeram treinos diários para forjar o lutador Billy "The Great" Hope

Billy (Gyllenhaal) e o treinador Tick Wills (Whitaker): uma dupla em busca de redenção

Destacam-se também no elenco de “Nocaute” a sempre radiante Rachel McAdams (vista recentemente na segunda temporada de “True Detective”, da HBO), como a esposa e “eixo de equilíbrio” de Billy, Maureen Hope, e o ótimo Forest Whitaker (de “O Mordomo da Casa Branca” e “O Último Rei da Escócia”) com mais uma boa interpretação na pele do treinador Tick Wills. Oona Laurence, que ganhou um prêmio Tony no teatro americano, também garante bons momentos dramáticos nos conflitos entre filha e pai. É uma relação que passa de amor a ódio a partir da morte da mãe e do descontrole emocional de Billy, que o leva a perder a filha para a assistência social. E, como em toda boa história de redenção, Billy recomeça do zero a carreira no ginásio decadente de Tick.

Billy alia a raiva  e a canhota poderosa para vencer, mas logo tem de se  reconstruir como boxeador mais técnico e cerebral

Billy alia a raiva e a canhota poderosa para vencer, mas logo tem de se reconstruir como boxeador mais técnico e cerebral

O ponto fraco do filme, que talvez o impeça de entrar para a galeria dos clássicos inesquecíveis do gênero, é o não aprofundamento de alguns personagens importantes, que foram pouco explorados, como o empresário inescrupuloso de Billy, Jordan Mains – vivido de maneira burocrática pelo rapper 50 Cent – e o rival de Billy nos ringues, Miguel “Magic” Escobar, papel construído de forma superficial, sem muito espaço para suas motivações e dramas pessoais que o livrassem da óbvia faceta de vilão esterotipado (a não ser uma rápida cena de uma mulher drogada com filho em seu apartamento). “Magic” é um desperdício de oportunidade para Miguel Gomez, um talento promissor, visto na série “The Strain”, produzida por Guillermo del Toro.

No geral, “Nocaute” tem mais qualidades do que defeitos e deve agradar aos fãs do gênero, que não devem deixar de ir ao cinema e torcer pela redenção emocionante de Billy “The Great” Hope.

Assista ao featurette do treinamento de Jake Gyllenhaal:

 

Fernando Porto é jornalista, escritor, terapeuta e editor da Agência Porto de Notícias, que oferece um conteúdo jornalístico diferenciado para o público de cultura, viagens, saúde e lifestyle