Ninjutsu: defesa pessoal e filosofia de vida

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Mestre Hatsumi e o shihan Pedro Fleitas: ensinamentos milenares dos ninjas.

“Shikin Haramitsu Daikomyô!” O som uníssono das vozes de centenas de pessoas, vestidas com kimonos pretos, ecoou pelo ginásio do Sesc Ipiranga, seguido pelo bater de palmas e a reverência para o altar com os retratos dos mestres japoneses. A oração – que significa “Tudo que aprendemos é Sagrado, aonde nos conduzirá para a Grande Iluminação que pretendemos” – dava início aos dois dias de “Taikai”, um congresso que reuniu os praticantes da Bujinkan (Escola do Guerreiro Divino), vindos de vários estados brasileiros e de outros países, como Argentina e Portugal.

Bujinkan também é conhecida por ser a autêntica escola de ninjutsu – a arte marcial dos ninjas. Esses conhecidos guerreiros que surgiram no Japão Feudal mexem até hoje com o imaginário popular, principalmente por causa dos filmes que os retratam como espiões mascarados, arremessando “shurikens” (lâminas em forma de estrelas), manejando as katanas (espadas japonesas) com rapidez e desparecendo no final após atirar bombas de fumaça. O cinema, aliás, nunca foi muito generoso com esse tipo de guerreiro, colocando-o muitas vezes como um vilão ou um assassino impiedoso. Uma injustiça contra uma filosofia milenar que exalta os valores do budismo, sem exigir qualquer conversão religiosa.

O capuz que cobre o rosto do ninja nos filmes também não faz parte dos treinos da Bujinkan. Exceto durante os “gotonpos” – treinamentos na mata que duram uma noite inteira, onde grupos divididos têm por objetivo passarem despercebidos e atacarem seus oponentes. Essas missões noturnas lembram treinos táticos militares – não por acaso, o ninjutsu é praticado por várias tropas de elite do mundo inteiro. Os golpes misturam socos e chutes em locais vulneráveis do corpo – alguns letais – além de torções de braços que lembram muito o aikidô (suas origens se cruzam). E como se define o ninja moderno? “Ele não é muito diferente do ninja antigo porque tem os mesmos princípios filosóficos, de base e de essência. E vive em constante relação com a natureza, através da prática do budô (arte marcial)”, explica o espanhol Pedro Fleitas, considerado um dos principais shihans (professores) do Ocidente e discípulo direto do mestre Masaaki Hatsumi – 34º sucessor da arte ninja de Togakure e de mais oito escolas (Ryu) pertencentes a Bujinkan. Para se ter uma ideia, Hatsumi, hoje com 81 anos, chegou a ser condecorado pelo imperador Hiroíto como o “Último Guerreiro Antigo” do Japão.

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Alunos de ninjutsu em evento em São Paulo, em 2012

Certamente, há muita fantasia em torno dos “superpoderes” dos ninjas. Mas muitas habilidades que desafiam as leis da física são treinadas nos “dojos” e requerem anos de treinamento e persistência. Não é à toa que o ninjutsu significa também a “arte de persistir, perseverança”. No entanto, o ensinamento acolhe todos os interessados porque respeita os limites físicos de cada um. “Não é você que deve se adaptar ao budô (arte marcial), mas sim o budô que deve se adaptar a você”, explica o shihan brasileiro Ângelo Arantes.

Há contudo alguns requisitos básicos. “É preciso ter uma motivação adequada. Mas, além dessa motivação, logo surge a missão de se manter no caminho, que é a parte mais complicada na sociedade moderna. E só por meio da constância, pode-se entender a essência do ninjutsu”, explica Pedro Fleitas. Também é proibida qualquer tipo de competição. Ninjutsu, explicam, não é apenas defesa pessoal; é filosofia de vida.

Aprender a arte também significa dor. Foi o que os iniciantes constataram no evento que inicia essa matéria, durante a exibição de novas técnicas. Entre braços e dedos torcidos, apertões de narizes, orelhas e gargantas, os alunos eram arremessados pelo shihan espanhol. As cenas são difíceis de explicar. Ele recebe o ataque e mexe o corpo do agressor sem qualquer tensão, como se manipulasse uma marionete. No final de cada golpe, Pedro abria o sorriso, abraçava as vítimas e repetia: “Smile! Relax! Easy!”.

E há algum sentido em fazer o oponente sentir tanta dor nos treinamentos? Para os praticantes, é mais do que necessário ter a certeza da eficiência do golpe – sem fraturas, obviamente. “Sem dor, não há vida”, responde Pedro à reportagem. “Nascemos com dor. E a vida é continuamente a dor humana. Mas tudo é dor momentânea…Sabe o que é muito pior? A confusão. A dor é temporária – passa no dia seguinte. Já a confusão mental é para toda a vida”, acrescenta, abrindo um largo sorriso.

No final de dois dias de treino intenso, veio a confraternização, os sorrisos, as fotos e o cumprimento final entre os praticantes: “Bufu Ikkan!”, que significa algo como: “Mantenha–se em um caminho reto, como o vento das artes marciais.”

“Por meio da constância, pode-se entender a essência do ninjutsu”

O espanhol Pedro Fleitas concedeu uma breve entrevista ao portal Enjoy Life. Em um momento mais descontraído, o shihan faz piadas para mostrar que o ninja não deve ser sisudo, mas procurar transmitir alegria às pessoas. Mesmo assim, não deixa de passar a essência da arte marcial a cada pergunta.

Como o senhor define o ninja moderno?
Não é muito diferente do ninja original porque tem os mesmos princípios filosóficos, de base e de essência. Ele vive em constante relação com a natureza, através da prática do budô (arte marcial).
O budismo está relacionado com o ninjutsu. É preciso aceitar essa doutrina?
Sim, está relacionado porque faz parte da cultura japonesa. Mas, eu te pergunto: o futebol está relacionado com o cristianismo do Brasil, de suas origens? Não. Da mesma forma, não é preciso ser budista para ser praticante de ninjutsu. O que pode ocorrer é que a pessoa tenha de passar pela filosofia do budismo para praticar o ninjutsu em sua plenitude porque está impregnado nele.
Vivemos em uma guerra em nossas vidas? Nas ruas, no trabalho?
O ser humano, ao longo da história, sempre esteve em conflito, é sua natureza. Mas existem conflitos individuais na sociedade. O importante é saber como se percebe o conflito. O que queremos, por meio da prática do budô (arte marcial), é que a pessoa perceba o conflito como algo natural e, não considerar um pequeno conflito como uma catástrofe.
Quais são os principais requisitos para ser um praticante de ninjutsu?
Para começar a praticar, é preciso primeiramente ter uma motivação adequada, que é como uma semente. Então você terá o instrutor, que é como a terra, a água e o sol. Assim essa semente dará um fruto muito belo. Mas, além da prática de início com essa motivação, logo surge a missão de se manter no caminho, que é a parte mais complicada porque, na sociedade moderna, principalmente o jovem tem pouca capacidade de ser constante no que faz. Como há tantas possibilidades, ele caminha muito rápido entre várias atividades e não se mantém constante. E só por meio da constância, pode-se entender a essência do ninjútsu.
Como um executivo ou uma pessoa de negócios pode se beneficiar da prática do ninjutsu?
Em primeiro lugar, ele é uma pessoa. Em segundo lugar, é de negócios. Ou seja, consideramos o ser humano. E, se esse ser humano está bem, seus negócios também estarão. O quero dizer é que são valores que estamos perdendo. Valores éticos, da disciplina, da constância. Temos de desfrutar das coisas da vida, mas nunca em demasia. E não deixar de se relacionar com o entorno, que chamamos de cinco elementos. O primeiro: o corpo, a estrutura. O segundo: o que consumimos, que é químico. O terceiro: nossas emoções. O quarto: as energias – as naturais, como do sol, do mar, da terra. O quinto (o vazio, da criatividade)… Portanto, se um homem ou uma mulher de negócios tem esse equilíbrio, seus negócios também terão equilíbrio.
Por que vemos uma imagem mais negativa do ninja, principalmente no cinema? Na maioria das vezes, é o vilão…
Porque, no cinema, é sempre mais fácil vender algo que é caótico, desestruturado do que algo que é bom. E o que se vende mais nos telejornais, que traz mais audiência? As guerras. Diferentemente, se uma pessoa publica um livro, vemos pouco. Por outro lado, o ninja era um ser humano normal que defendia seus direitos simplesmente. E em diferentes épocas, vivia em intenso contato com a natureza. E essa imagem de rosto coberto, não foi sempre assim – ele precisou fazer isso poucas vezes. E mudava com facilidade os disfarces, oferecendo diferentes faces para cumprir seu objetivo. Se precisasse chegar ao Brasil, por exemplo, poderia se disfarçar de turista.
Em outras artes marciais japonesas, não há um contato físico tão intenso e com dores inevitáveis durante os treinos. Por que é tão diferente?
No budô, a vida do ser humano está relacionada com as distâncias. E nós, seres humanos, estamos invadindo constantemente o espaço das outras pessoas sem sabermos. E temos de aprender, através do contato físico, que isso é uma invasão. Sobre a segunda parte da questão, digo: sem dor, não há vida. Nascemos com dor. E vamos morrer, muitas vezes, com dor. E a vida é continuamente a dor humana. Mas tudo é dor momentânea…Mas sabe o que é muito pior? A confusão. Viver uma vida com confusão é terrível. A dor é temporária – passa no dia seguinte. Já a confusão mental é para toda a vida.

Serviço
Para aprender nijutsu, há opções de dojos em São Paulo pelo site: http://www.bujinkandojo.com.br

Fernando Porto é jornalista, escritor, terapeuta e editor da Agência Porto de Notícias, que oferece um conteúdo jornalístico diferenciado para o público de cultura, viagens, saúde e lifestyle

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