‘Sobrenatural: A Origem’ garante sustos, mas é inconsistente

Os dois primeiros filmes da franquia “Sobrenatural” (“Insidious”) comprovaram o toque de Midas da dupla James Wan e Leigh Whannell – os mesmos de “Jogos Mortais” – com seu dom de transformar longas de orçamento abaixo de US$ 10 milhões em centenas de milhões de dólares nas bilheterias pelo mundo. O número de fãs da cinessérie é tão expressivo que “Sobrenatural” se tornará atração em setembro deste ano do Halloween Horror Nights no Universal Orlando Resort e no Universal Studios Hollywood, se juntando a outros sucessos do terror, como “The Walking Dead” e  “Freddy vs Jason”,  como já noticiado aqui http://portodenoticias.com.br/sobrenatural-sera-atracao-halloween-do-universal-orlando/ . É evidente então que se criou uma grande expectativa para “Sobrenatural: A Origem” (Insidious: Chapter 3), distribuído pela Sony Pictures e que estreou ontem (30) no circuito nacional.

Os fãs da série terão sustos garantidos nessa terceira parte, que recebe o título em português “A Origem” por ser um prequel do primeiro filme e de sua continuação. No entanto, os problemas começam por aí. Sai de cena o personagem central Josh Lambert, interpretado pelo bom ator Patrick Wilson (de “Watchmen” e “The Ledge”, e que parece ser muito querido por James Wan, que o dirigiu também em “Invocação do Mal”) e entra o burocrático Dermot Mulroney, mais conhecido por papéis em comédias românticas, como um dos protagonistas no papel de um pai viúvo, Sean Brenner, que vive com a filha adolescente Quinn Brenner (Stefanie Scott).

Quinn atormentada

Quinn (Stefanie Scott) atormentada por uma criatura demoníaca

Além da interpretação sem energia, Mulroney também é prejudicado pela fraca construção de seu personagem, que se mostra um pai sem iniciativa nenhuma para proteger a filha. Em um roteiro preguiçoso, cheio de furos, que parece ter sido feito às pressas pelo australiano Leigh Whannell para assumir a primeira direção de sua vida (o malaio James Wan apenas produz desta vez), há incoerências difíceis de aceitar, principalmente a misteriosa omissão de Sean Brenner na hora de proteger a filha (Stefanie Scott, que se vira melhor, mas está em um papel também limitado). Inexplicavelmente, como um pai pode deixar a filha sozinha o tempo todo mesmo após comprovar que alguém está entrando na casa e tentando matá-la?

Do elenco do filme anterior, Whannell volta no mesmo papel de Specs, que faz a dupla atrapalhada de pseudo-parapsicólogos junto com Tucker (Angus Sampson). Lin Shaye também está de volta mostrando a origem de seu papel de vidente, Elise Rainier, e como se uniu com Specs e Tucker. E realmente é ela quem salva o filme com uma interpretação mais consistente. Na história, a adolescente Quinn Brenner sente que sua falecida mãe está tentando contactá-la e procura  Elise, mas uma tragédia do passado da médium a faz relutar em usar suas habilidades. Pouco depois, um acidente deixa Quinn numa recuperação forçada em casa. Ela é, então, atacada em seu quarto por uma entidade sobrenatural, com máscara de oxigênio na cara. Em crise em sua fé, Elise invoca seus poderes para contactar espíritos e é forçada a se embrenhar cada vez mais no “Além” a fim de impedir Quinn de ser possuída para sempre.

A médium Elise comanda a sessão espírita

A médium Elise (Lin Shaye, ao centro) comanda a sessão espírita para ajudar Quinn (Stefenie Scott) e o pai apático (dermont Mulroney) a se livrarem da criatura demoníaca

Os sustos estão presentes, como já é de se esperar nos filmes da franquia, mas é possível prever alguns desses momentos porque seguem as regras dos clichês de terror – com exceção da bem bolada cena de atropelamento de carro. Eis mais um problema: tudo o que antes era colocado abertamente como homenagens aos clássicos de terror nos dois primeiros filmes, refletem nesta terceira parte como simples cópias, dada a maneira forçada que são encaixadas, como uma mal feita colcha de retalhos de clichês de Poltergeist, Exorcista, dentre outros.

O roteiro cheio de furos, com superficialidade dos personagens, cria a impressão de que Leigh Whannell não deu conta de acumular essa função que está habituado com a de diretor – além de ator. Um desperdício para uma aparente melhoria de qualidade técnica em relação aos dois primeiros longas, principalmente nos efeitos especiais dos ataques da nova criatura demoníaca e também nos corredores sombrios da jornada da médium Elise no mundo do “Além”.  Quem sabe James Wan retome a direção na quarta sequência e as coisas se acertem? Afinal, dinheiro não falta nos bolsos da dupla para nonas produções após o estouro nas bilheterias.

Assista ao trailer:

 

Fernando Porto é jornalista, escritor, terapeuta e editor da Agência Porto de Notícias, que oferece um conteúdo jornalístico diferenciado para o público de cultura, viagens, saúde e lifestyle