‘Spotlight’ joga luzes na perversidade tolerável

Por Fernando Salgado

Há um equilíbrio social tênue que se sustenta sobre a perversidade em “Spotlight: segredos revelados”. Numa Boston retratada como uma pequena província, no ano de 2001, cujo poder central emana da Igreja Católica local e perpassa as instituições, as vidas giram estruturadas em códigos ditados por essa Igreja. As famílias de classe média e alta praticam obras caridosas em suas entidades religiosas de benemerência, enquanto seus membros mais influentes, especialmente advogados, fecham os olhos ou são coniventes com os desvios sexuais do clérigo – tudo pelo bom andamento da cidade. No entanto, as pessoas de classe baixa sofrem os efeitos desse bem cego, com seus traumas sexuais de infância, provocados por abusos dos homens que agem em nome de Deus, e nunca são impedidos.

Elenco de peso: Michael Keaton, Liev Schreiber, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, John Slattery e Brian dArcy James

Elenco de peso: Michael Keaton, Liev Schreiber, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, John Slattery e Brian d’Arcy James

E o que interromperá a cegueira civil coletiva nessa atmosfera próxima da Era Medieval? A exemplo do que causaram o Renascimento e o Iluminismo, será o conhecimento, desta vez gerado pela boa Imprensa – numa espécie de enciclopédia contemporânea – que jogará luzes quentes sobre este gelo sórdido que congela a reação da sociedade.
O filme, dirigido por Tom McCarthy, que tem em seu elenco nomes como Michael Keaton, Mark Rufalo e Rachel McAdams, clareia um tema que ganhou dimensão mundial de uns anos pra cá e vem sendo assunto obrigatório na agenda do reformador Papa Francisco: o da pedofilia na Igreja Católica.

Keaton (Walter Robinson) lidera uma equipe especial investigativa dentro do jornal Boston Globe, chamada Spotlight, especializada em levantar assuntos intrincados, com prazos infinitos de apuração, como no velho e bom jornalismo. A rotina muda quando um novo e cosmopolita editor judeu, Marty Baron, interpretado por Liev Schreiber, chega com as novidades do jornalismo contemporâneo: corte de despesas, que atingem em cheio os veículos de comunicação, matérias de impacto que digam respeito diretamente ao cotidiano do cidadão que leia aquele veículo e tempos mais precisos de apuração.
Pelo que sugerem os personagens, o fato de Baron ser judeu não é gratuito, dadas as referências às contrições de gastos e ao fato deste profissional de meia idade propor uma investigação nas entranhas da Igreja católica local, apontando o que parece ser um choque de religiões, num primeiro momento.

Rachel McAdams (Sacha Pfeiffer), Mark Ruffalo (Michael Rezendes) e Brian d’Arcy James (Matt Carroll), em ótimas interpretações de jornalistas investigativos

Rachel McAdams (Sacha Pfeiffer), Mark Ruffalo (Michael Rezendes) e Brian d’Arcy James (Matt Carroll), em ótimas interpretações de jornalistas investigativos

É a partir da determinação de Baron em investigar escândalos sexuais da Igreja que a história se desenrola, com atuações especialmente marcantes de Keaton e Rufalo (Michael Rezendes), ator este que parece talhado para filmes investigativos intrincados, como já havia demonstrado em Zodíaco, de 2007. Marcante também o trabalho de Stanley Tucci, como o advogado Mitchell Garabadian, que trabalha pelas vítimas dos abusos – que não cessam de aparecer – e dá o caminho das pedras para a apuração de Rezendes, numa espécie de Deep Throat (Garganta Profunda) dos anos 2000, só que às claras.

Garabadian, que trabalha com seus ternos do dia a dia, num espartano escritório de advocacia, com divisórias antigas e caixas de papelão, é o oposto do bem-sucedido advogado Eric MacLeish (Billy Crudup), um dos defensores dos padres acusados de molestar crianças, que traz consigo toda pompa e circunstância. Mas, como nem todo mundo é tão bonzinho ou malzinho neste mundo – ou ao menos carrega sua parcela de responsabilidade como peso na consciência – MacLeish também dá dicas aos jornalistas de como chegarem aos seus investigados.

Embora americana, a Boston do filme é universal, e serve para retratar uma prática na Igreja descoberta em centenas de outras localidades e países, como a projeção irá destacar. “Spotlight”, portanto, é uma obra de alto nível, com direção precisa e construção de história no que de melhor o cinema americano sabe fazer.
Assista ao trailer: