Swing: tabus e verdades

O swing é uma libertação de preconceitos ou, como defendem os conservadores, uma promiscuidade e também uma perversão? O homem é o principal iniciador do casal na prática, como prega o senso comum, ou se trata de pura generalização?
A antropóloga e jornalista mineira, Maria Silvério, foi a campo entrevistar casais de diversas casas de swing e, após dois anos e meio de pesquisa, publicou sua visão no livro-reportagem  “Swing: Eu, Tu… Eles”, da Chiado Editora – obra, de 284 páginas, que será lançada no dia 13 de agosto em São Paulo na Casa de Lua. A obra é fruto de um mestrado realizado no Instituto Universitário de Lisboa e teve como base, segundo a autora,  “a investigação de cenários, tabus e surpresas que envolvem o assunto”, levantando reflexões sobre as mudanças nos paradigmas dos relacionamentos na contemporaneidade. O reportagem do portal Enjoy Life conversou com a pesquisadora sobre algumas questões populares dessa prática sexual ou modo de vida que, apesar de registros históricos desde a Antiguidade, ainda gera preconceitos e choca a opinião pública.

No seu livro, você defende a tese de que o swing não é um ato promíscuo. Por que?
A promiscuidade está diretamente ligada aos nossos valores morais. Por isso, muitas vezes, um ato é considerado promíscuo em uma determinada sociedade ou em um determinado período, mas não é visto da mesma forma em outros lugares ou tempos. Prova disso é que, durante o Império Romano, as orgias eram praticadas sem serem consideradas promíscuas, mas, sim, “normais”. As sociedades ocidentais contemporâneas são normatizadas pelos valores cristãos que defendem três pilares centrais para o casamento: monogamia, heterossexualidade e indissolubilidade. Neste sentido, se analisarmos bem, tudo aquilo que sai deste padrão é normalmente considerado promíscuo.
A homossexualidade, por exemplo, é vista como promiscuidade por muita gente. A mulher (e não o homem) que tem muitos parceiros sexuais, também é considerada promíscua por muita gente. Mais uma vez, voltamos para as questões socioculturais. Ou seja, em termos de valores morais que regem as sociedades ocidentais, o swing, e várias outras práticas, são vistas como promíscuas. Conforme uma prática vai ganhando mais aceitação social (como a homossexualidade), mais ela vai sendo afastada do conceito de promiscuidade.
A maior parte das pesquisas, no entanto, ressalta que o swing proporciona mais benefícios do que consequências negativas não só para a relação como para os swingers enquanto indivíduos. As alegações mais comuns são que o estilo de vida fortalece o casamento e aumenta a percepção acerca da qualidade do mesmo; aproxima o casal emocional e sexualmente; melhora a vida sexual e aumenta o desejo pelo parceiro; além de propiciar uma comunicação mais aberta e honesta entre o casal. É preciso ficar claro que o swing é uma prática em que os adeptos consideram-se amorosamente monogâmicos e sexualmente poligâmicos (pois envolvem-se sexualmente com outras pessoas, mas amam e têm afeto somente pelo parceiro).

Capa do livro da pesquisadora Maria Silvério

Capa do livro da pesquisadora Maria Silvério

Existem casos em que a procura do swing pode ser mais um problema do que uma solução para um casal em crise?
Essa questão é bastante ressaltada por praticantes e pesquisadores: o swing deve ser adotado somente por casais estáveis, que estão bem e não por casais em crise. O swing não é remédio ou solução para casais que estão com problema. Pelo contrário, o mais provável é que o relacionamento irá desmoronar de vez com a entrada do casal no swing. É preciso muita preparação emocional de cada um e do casal. É uma decisão que tem que ser bastante refletida e pensada. Mesmo depois de entrar para este universo, o casal continua se adaptando, moldando e transformando a relação conforme as experiências vividas. E se o casal não está bem, ele não consegue lidar com esse turbilhão de coisas e transformações provenientes deste universo. Veja o que dois dos meus informantes falam no livro:
Gabriela explica que “o swing é o telhado da casa. As pessoas só vão para o swing quando tudo entre elas está bem resolvido. E acima de tudo, os dois têm que pensar que o que um não quer, os dois não fazem.” Gabriel resume o assunto de forma direta: “O swing pode proporcionar ao casal uma descoberta de novas experiências sexuais que pode ser boa ou pode ser má, como todas as coisas. Pode fortalecer ou destruir um casamento. Depende de como as pessoas levam a sua vida para o swing. O swing tem o lado bom e o lado mau, como todas as outras situações. Depende da pessoa.”

Em seu estudo, é o homem ou a mulher que toma mais a iniciativa para o casal procurar a prática? Ou fica impossível generalizar quem é mais ou menos conservador?

Essa questão é bastante discutida no livro, pois está diretamente ligada à construção sociocultural do papel do homem e da mulher. A sociedade ensina que os homens têm que ser garanhões, transarem com várias, demonstrarem o seu “instinto sexual” etc. Já as mulheres têm que ser controladas, pudicas, amáveis, dóceis, cuidadosas com o marido e os filhos. Neste sentido, quando a iniciativa parte do homem, muitas mulheres acabam interpretando como algo que faz parte “da natureza” masculina.
Além disso, muitas cedem porque acham que, caso contrário, irão perder o companheiro. Mesmo aquelas que inicialmente ficam chateadas, magoadas ou achando que o companheiro não as ama mais, acabam refletindo sobre a proposta porque a sociedade ensina que “os homens são assim mesmo, não conseguem controlar os seus desejos e instintos”. Já no caso da iniciativa ser feminina, muitos homens não sabem como reagir, pois acham que isso não é coisa de mulher (ou, pelo menos, de “sua” mulher) e colocam em dúvida sua reputação, associando-as com “putas”, “vagabundas”. Além disso, muitas vezes, as próprias mulheres têm dificuldades em romper com aquilo que aprenderam que significa “ser mulher”.
Em termos antropológicos, não se pode dizer que os homens têm “naturalmente” mais instintos e desejos sexuais que as mulheres ou que um é “naturalmente” mais conservador que o outro. Diversos estudos mostram que trata-se muito mais de construções e imposições culturais do que características naturais. Não só na minha pesquisa, como em todas as outras, a iniciativa para o swing é esmagadoramente masculina. Muitos swingers com quem conversei, no entanto, acreditam que se as mulheres fossem menos reprimidas pela sociedade, haveria um número muito maior de mulheres que tomam a iniciativa ou que participam do swing enquanto singles (solteiras).

O cinema e a literatura procurou alguma vezes glamourizar o swing com casais sempre belos e desencanados com a vida. E há reportagens no Brasil que mostram não ser esse primor estético e que há casos de prostitutas que se passam por esposas ou namoradas de alguns praticantes. Qual foi a realidade que você encontrou em sua pesquisa de campo?
Estudos realizados até a década de 1990 indicam que o perfil predominante no swing é de pessoas brancas, casadas, de classes média e média-alta, com nível de instrução e salarial elevado, posições profissionais estáveis ou em cargos de gerência. Os dados mais divergentes dizem respeito à faixa etária, mas podemos concluir que trata-se sobretudo de casais maduros, com mulheres acima dos 30 e homens acima dos 35 anos. A comunidade swinger é mais heterogênea atualmente do que há algumas décadas. Hoje em dia ela abrange pessoas de classes sociais, níveis educacionais e profissionais menos favorecidos, além de jovens na faixa dos 20 anos. Além disso, muitos swingers têm filhos.
Em relação ao tipo físico, é bastante variado e, de fato, não é apenas de pessoas lindas e saradas, como as imagens de divulgação de festas e filmes exibem. As pessoas mais velhas, por exemplo, muitas vezes têm o tipo físico condizente com a idade: barrigas salientes, rugas, calvície, etc. Uma questão que me chamou atenção em relação ao swing no Brasil e em Portugal é que no Brasil existe um número maior de casais em que os homens são bem mais velhos e menos atraentes do que as mulheres. Em Portugal, existe mais equilíbrio entre a idade e o tipo físico dos dois membros do casal.
No caso de homens que contratam prostitutas, isso acontece por uma razão específica: o swing é uma prática de casais e existe um número grande de homens solteiros que frequentam esse universo. Por isso, as casas de swing adotam algumas medidas para evitar a grande quantidade de singles masculinos: limitam os dias e a quantidade e cobram muito mais caro deles do que de casais ou de mulheres solteiras (quantidade muito reduzida). Desta forma, os homens contratam garotas de programa para burlar essas regras.
Durante a investigação, aparentemente não presenciei esta situação, mas conheci um casal que abertamente apresenta-se como “amigos de swing”. Também testemunhei um casal que notoriamente não tinha qualquer relação de afeto ou amizade entre si. De acordo com meus informantes, os “casais de fim de semana”, “casais de conveniência”, “falsos casais”; “casais amigos”…. Enfim, existem diferentes nomes para as pessoas que fingem ser um casal para terem acesso à uma casa de swing e esses casais são facilmente reconhecidos no meio por suas atitudes e comportamentos. Por isso, eles são normalmente evitados pelos verdadeiros swingers. Os informantes também contaram que o XClube, em Lisboa, por exemplo, cadastra todos os frequentadores para certificar que o casal é sempre formado pelos mesmos membros.

Maria Silvério: "Conforme uma prática vai ganhando mais aceitação social , mais ela vai sendo afastada do conceito de promiscuidade."

Maria Silvério: “Conforme uma prática vai ganhando mais aceitação social , mais ela vai sendo afastada do conceito de promiscuidade.”

 

Fernando Porto é jornalista, escritor, terapeuta e editor da Agência Porto de Notícias, que oferece um conteúdo jornalístico diferenciado para o público de cultura, viagens, saúde e lifestyle